Tem novidade?
Tem, sim, senhor!




OH! OH! OH!


Strogonoff Petista

Deitei a cabeça no travesseiro torcendo para ter um sonho deleitoso, puro, mimosinho, preferencialmente uma viagem no Orient Express. Pensei no trem partindo da Estação Santa Lucia, lá em Veneza, com destino a Viena e, posteriormente, Paris.
Entretanto, deu cocô: acabei lembrando do Zé Dirceu, do Sarney, do presidente Lula fazendo seus medonhentos discursos de improviso, o que me fez sonhar com um absurdo strogonoff de carne de macaco, preparado por uma misteriosa quituteira do Mal chamada
Mãe Martinha de Malaketo
.
Sei que foi castigo!


* * *


QUE COISA!!!


Eu escrevo minhas bobagens aqui no recadário e há filas de pessoas a competir para ver quem veste primeiro as carapuças. Que coisa, não?
"Ele falou de mim, o maldito Dennis!" / "Foi de mim que ele falou, aquele Dennis cretino e neurótico!"
Ora, ora, não procurem pintos em ovos! Digo pêlos em ovos! Pêlos!!! Se as carapuças todas estão servindo tão confortavelmente, talvez signifique algo, não é mesmo?


* * *


Momento Psicológico


Quando o esperto vovô Jung descreveu aqueles maravilhosos arquétipos, tais como o Infante Herói e o Sábio Ancião, esqueceu de mencionar a Caçadora de Pintinhos. Ela é um arquétipo importantíssimo. Importantíssimo! Eu acho que a Caçadora de Pintinhos tem o dom da ubiqüidade - igual a Santo Antonio. Duvidam? Basta passear por aí.



* * *


Voltando!


* * *









O Filho do Hipnotizador
e outras histórias de
estranhas pessoas -
Dennis D.
208 páginas
Contos Diversos
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"Over the Rainbow"
Harold Arlen



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2 - Unforgettable
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São Paulo, Sexta-feira, Outubro 22, 2004

Pois é, Bebé, já não ando rabiscando neste Caderno. Quer o motivo? Acho que foi o efeito dos raios gama nas margaridas do campo.
Por enquanto, Bebé, você pode me encontrar lá no http://dennis.d.zip.net
e também no http://www.patinando.blogger.com.br .
Ah! Dispenso visitas daquele pessoalzinho do Esporte Clube Iscariotis.
No mais, nada mais, Bebé.

Clique no moleque do olho doido!




São Paulo, Quarta-feira, Março 24, 2004



Era terça-feira, dia 15 de outubro de 1918. A notícia, contendo um implícito apelo às autoridades do governo federal, estava na primeira página do combativo jornal A Rua - dirigido pelos escritores Pardal Mallet, Olavo Bilac e Raul Pompéia:

Grippe Hespanhola - 'As fabricas começam a fechar, as officinas ficaram com as suas portas cerradas, grande numero de casas de commercio não funccionam. O governo não póde criminosamente ficar de braços cruzados, assistindo platonicamente ao desenrolar dos acontecimentos. O que se esperava desde as primeiras horas de hontem deu-se hoje: as pharmacias começaram a fechar. Desde as primeiras horas em que se declarou a epidemia que a romaria ás pharmacias não parou nem um instante. Houve então uma grande desorientação e uma ignobil exploração por parte de algumas pharmacias. Os preços variavam de pharmacia para pharmacia e de bairro para bairro. O tubo de bromo-quinino passou a custar de 1.500 a 8.000 e 9.000 réis. Uma limonada purgativa 4, 6 e 8.000 réis. Uma capsula com 25 ctgrs. de Sulphato de Quinino custava 400 réis, no maximo, custa 2 e até 3.000 réis! É o furto, parecendo que nem se quer estamos numa cidade policiada! Mas a necessidade era grande e os doentes nos milhares, o que fez com que apezar do descabido escandaloso dos preços, os medicamentos se esgotassem. Várias pharmacias, especialmente nos suburbios, allegam tambem a doença do seus pessoal. Que será da população sem ter sequer medicamentos? Ha mais ainda no capitulo pharmacia. Em algumas dessas casas a exploração na venda dos 'preventivos e preservativos' attingiu as raias do inacreditavel. Tudo era preventivo. Até a vulgar naphtalina! e como tal tudo era cobrado em dobro e em triplo.'

Naquele mesmo dia 15, em Teresópolis, perto das seis da tarde, a pequena Maria Francesca Di Savóia Borbone arroxeou-se e morreu. Sua mãe, a princesa Beatrice, não derramou uma única lágrima. Simplesmente se recusou a acreditar naquela morte como um evento definitivo. Tomou nos braços o corpinho molenga da criança, desceu todas as escadas do velho sobrado e trancou-se no porão.
Lá ficou, muito quieta, acocorada num canto, esperando que o carrilhão batesse meia-noite. Nas horas seguintes, que lhe pareceram intermináveis, nenhum pensamento se encadeava a outro, para formar idéias coerentes ou para reviver memórias felizes. Finalmente, ao escutar a última das doze badaladas, a princesa Beatrice chamou o Diabo. E ele veio.

Passaram-se muitos anos. A princesa não mais voltou a Madri, pois o Diabo fora bem claro ao detalhar os prós e os contras do milagre concedido. Maria Francesca era amorosa, obediente, a mais encantadora das filhas, mas já precisara trocar de corpo dez vezes e - para a infelicidade de Beatrice - jamais aceitara ocupar um corpo maior. Sempre exigia corpinhos de dois anos de idade, no máximo de três, caso fossem mirradinhos. A cabeça também fora trocada algumas vezes. Apenas três vezes, na verdade, pois parecia durar bem mais. Mesmo sem os olhos, a rediviva Maria Francesca tudo enxergava; mesmo sem a língua ou as cordas vocais, sua voz permanecia a mesma: muito baixinha, muito suave, como se imagina ser a voz de um querubim. Além disso, Maria Francesca pintava belíssimas aquarelas, tocava piano com perfeição e falava e escrevia corretamente em nove idiomas, incluindo o russo e o grego.

O príncipe não aceitara o milagre. Voltara para a Espanha em 1919, carregado de mentiras. Na cripta do seu palácio, em Madri, realizou o sepultamento de ossos de boi, sob duas impressionantes estátuas de bronze, que representavam a esposa e a filha, unidas em terno abraço - ambas supostamente mortas na floresta tropical, despedaçadas por uma onça de 130 quilos.
Ninguém duvidou das explicações ou das lágrimas invisíveis do príncipe.

Em dezembro de 1926, na ante-véspera do Natal, a princesa Batrice pôs-se a escovar os cabelos da filha. De repente, um cacho louro desprendeu-se inteiramente da cabeça de Maria Francesca, trazendo consigo alguns centímetros do couro cabeludo.
A menina choramingou:
- Eu bem que disse que esta cabeça estava horrível, madrecita! Quero outra, nova e linda, para comemorar o Natal!
A princesa exasperou-se:
- Não há tempo, meu bebê! O Natal está aí...
- Seja boazinha, madrecita querida! Se eu não tiver uma cabeça nova e linda, juro que morro! Juro que morro, madrecita! - e caiu em prantos.


"Nunca morrer assim! / Nunca morrer num dia / Assim! De um sol assim!"
(os três primeiros versos do poema In Extremis, de Olavo Bilac)

* * *
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São Paulo, Terça-feira, Março 09, 2004

Odette de Crécy era luxuosamente vulgar e sua cultura tinha a profundidade de um pires. A catléia dela exalava um cheiro forte, muito forte. Se Odette tirasse as calcinhas na praia... seria atacada por bandos de gaivotas esfomeadas, creiam-me. Entretanto, Odette de Crécy era uma verdadeira cocote, aos moldes galantes do século XIX, e tinha encantos, graciosidades que compensavam seu ordinarismo natural.
Momento bucólico. Caminhemos até o campo.
As vacas no cio levantam o rabo, exibem as mucosas saltadas, vermelhas, molhadas, pulsantes, mas abaixam a cabeça, como se aquele oferecimento instintivo as constrangesse. Abaixar a cabeça é, e sempre foi, uma expressão da mais pura singeleza vacum, e não uma atitude submissa, notem bem. Todo recato feminino é sempre singelo, repararam? É singelo e sedutor, ainda que se manifeste em mulas, vacas, galinhas ou cadelas sarnentas.
As Odettes modernas preferem empinar o nariz, fingir superioridade e fazer do seu ordinarismo inato uma bromélia colossal, a flor abrutalhada que nos inspira uma certa curiosidade, mas que não sabemos onde colocar. Onde caberia uma colossal bromélia de ordinarismo? Por isso, é justo que reconheçamos a superioridade das vacas, como também a superioridade das honestas putas de Vila Mimosa, que se revelam sublimes em comparação às Odettes modernas, no conteúdo como na forma, no direito e no avesso, na intenção e na atitude.
A famosa Odette de Charles Swann era burra, é verdade, mas não tão burra quanto as Odettes de hoje, de agora mesmo, daqui, essas tamanqueiras vanonis, assustadoras, que só fazem cirandar e cirandar, e cirandar mais do que moscas de abatedouro. Frenéticas como musas do beri-beri javanês, vivem para celebrar o Nada, festejar o Coisa-Alguma, bater palmas ao vento e pedir mais, muito mais de qualquer coisa, ainda que seja uma sobra, um resto de um resto de um resto. Blergh!
As Odettes de hoje nada deixarão de interessante ou de útil; passarão pelo mundo como um peido de galinha, uma coisinha à toa que não faz diferença alguma, porquanto seja apenas um peido de galinha.
E como escrevem mal! Não falo em gramática, não, mas em desordem de idéias (desordem textual e contextual). Ah! enfim eu descobri o que são essas Odettes modernas: são dadaístas! Que horror, o dadaísmo voltou do reino das idéias mortas! Devemos avisar o Caetano e o Décio Pignatari?
(Huaaaaaaaannn! Perdão pelo bocejo de tédio.)

Atenção! Atenção, Odette n° 7.654! Pode vestir sua carapuça, esteja à vontade, criatura!
E depois de vestir a carapuça... wassel fühder, por gentileza!




São Paulo, Terça-feira, Fevereiro 17, 2004

Com a morte de meu pai, cabe-me agora providenciar o inevitável esvaziamento de uma casa inteira, a casa onde cresci e de onde saí aos 25 anos, a casa que meu avô materno fez erguer no final dos anos 40, a fim de que sua filha, quando viesse a se casar, morasse com o mesmo padrão de conforto a que fora acostumada e - aqui a presumida intenção principal - não ficasse muito longe dele.
Vovô colocou os melhores materiais naquela casa de Perdizes, dos tijolos às madeiras das escadas e balaústres - madeiras nobres que sempre exibiram a mesma altiva solidez e a mesma tonalidade rara, um castanho tendendo ao dourado.
Nos tetos do andar de baixo, principalmente no da sala de jantar, os arabescos em relevo, os frisos com florões, as guirlandas e medalhões com rosas e camélias desabrochadas ainda lá estão, como sempre estiveram, sem uma trinca sequer. Coisa bem feita, coisa do tempo em que se privilegiava uma beleza de inspiração romântica. Atualmente, quase tudo o que se coloca para embelezar uma casa pode ser classificado como material cenográfico, que se deforma entre o verão e o inverno, racha, despenca, vira farinha.
Explicou-me meu avô, quando eu ainda era um garotinho, que aqueles belos trabalhos no teto haviam sido executados por um especialista italiano, um artesão que viera para São Paulo pouco depois de estourar a Segunda Grande Guerra. O italiano chegara com a mulher, dois filhos pequenos e um álbum de fotografias. As imagens do álbum comprovavam a competência do homem, apresentando alguns dos magníficos trabalhos que ele executara em residências finas de toda a Europa. Vovô e vovó teriam observado atentamente as fotografias e escolhido cada um daqueles temas decorativos, que foram então reproduzidos com perfeição pelo italiano. O serviço não deve ter custado barato, mas foi feito com tal esmero, com tal qualidade, que poderia durar quase indefinidamente.
Ah! quantas lembranças, velhas histórias, registros verbais. São montes de lembranças manifestando-se em sons abafados e em cores desmaiadas.
Vejo-me, aos 7 anos, sentado à mesa, contemplando o teto da sala de jantar. Quase posso adivinhar o que pensava então: um bolo confeitado, sim, aquele teto se me afigurava como um grande bolo confeitado com ornatos de glacê de açúcar.

Não posso continuar mantendo aquela casa. Nem teria cabimento eu deixar meu apartamento e voltar a morar nela. É grande demais para mim, exigiria manutenções constantes e dispendiosas. A casa, que já foi um lar, tornou-se apenas um imóvel, uma herança. Eu a venderei tão logo me seja possível, porque assim deve ser, e será, e acabou-se!
Provavelmente o novo proprietário botará abaixo metade daquele imóvel, mandará raspar todos os florões, as guirlandas, os medalhões que enfeitam aqueles tetos; derrubará muitas paredes, modificará as escadas, arrancará portas e janelas. Que seja, já não me importo mais. A velha casa, aquela que existe entre minhas lembranças, não pode ser desfigurada. Ela permanecerá sempre comigo, para o bem e para o mal, entranhada.

Estive pensando no que eu gostaria de retirar daquela casa física e conservar comigo. Alguns quadros, sim, objetos de certo valor artístico, um carrilhão vitoriano que soa lindamente, um lustre enorme, de oito braços, esculpido em madeira mil vezes mais dura que a minha cabeça (não me perguntem em que teto vou pendurar aquele polvo). Ah! eu gostaria (por razões sentimentais) de poder ficar com o sofá preferido de minha mãe, que é vitoriano e forrado com uma seda francesa de verdes profundos, sem um único defeito. Mas onde eu colocaria um sofá wildeano daqueles? Nem pensar! Nem pensar! O sofá será vendido e provavelmente o comprará, num antiquário qualquer, uma dessas emergentes vulgares, dessas deslumbradas imbecis que vivem falando em dinheiro, em grifes, mas nunca aprenderam que chic é algo que se tem e não algo que se é*. Dane-se o sofá vitoriano. Trá-lá-lá! Que vá receber outras bundas, e bem ordinárias, por certo. Uma imagem horrenda me chegou agora mesmo: a emergente vulgar deitada naquela seda e abrindo as pernas para um Wandercleyton - garoto de programa bem dotado. Bem, o que tenho eu com isso? Assim é a vida, não é? Dane-se!
Dane-se também o par de poltronas Luis XVI, que já perdeu todos os dourados e precisaria de reparos urgentes de um tapeceiro.

Confesso que senti certa raiva do meu pai, por ele ter acumulado tantas coisas, tantos objetos, coisas que agora se transformaram num fardo, muito mais do que num prêmio.
Minha mãe sempre quis se livrar de muitas daquelas velharias, mas ele, meu pai, jamais permitiu. O sonho de minha mãe era morar em um apartamento pequeno, moderno e prático, bem longe daquele acervo de inutilidades. Meu pai, muito ao contrário, cultuava cada objeto, não se desfazia de nada, e a casa onde vivia era o altar festivo de suas vaidade tolas e chatas. Quantas ilusões o guiaram do berço ao túmulo! - é uma constatação, não uma pergunta. E como ele deve ter sofrido, sendo tão apegado a essas ilusões! Pouco antes de ele morrer, fez-me prometer que eu preservaria a casa, preservaria carinhosamente seus tesouros. Prometi, menti despudoradamente, disse as besteiras todas que ele queria e precisava ouvir. Agora farei o que deve ser feito: tudo muito diferente do que seria a vontade dele! Não sinto culpa, não. Sinto alívio. Chega de altares e atavios, chega de gobelins empoeirados. A cerimônia terminou. Fim da liturgia pagã!

Quantos desencontros de sonhos, meu Deus! É impressionante! Eu, meu pai, minha mãe, cada qual olhando para uma direção diferente. Assim foi a nossa vida. Nunca pudemos caminhar de mãos dadas, nunca. Dane-se também a fantasia de que a felicidade será concedida apenas aos caminhantes que seguem bem juntinhos em direção a Oz!
Jamais consegui agradar a meu pai, que eu saiba. Não lhe dei desgostos, mas tudo o que eu lhe oferecia de melhor, tudo, tudo, fosse o que fosse, sempre acabava parecendo errado ou insuficiente. Sinto-me como um homem que passou a vida inteira tentando acertar sua bolinha em uma determinada caçapa, mas nunca conseguiu. Tentou de todas as formas, por todos os meios e ângulos, mas a maldita caçapa não queria receber a bolinha. Não queria e demonstrava que nunca haveria de querer. Num determinado momento, depois de anos e anos de tentativas inúteis, o homem enche o saco, perde a paciência que lhe restava, apanha um machado de 7 quilos (desses machados de bombeiro) e resolve destruir a mesa, a caçapa e a bolinha. Manda tudo às favas, arrebenta, esmigalha, tritura e percebe que aquele jogo nunca fora o seu jogo; era apenas uma armadilha destinada a minar sua autoconfiança.

No dia em que, pela última vez, eu fechar as portas daquela casa, seguirei em frente e não olharei para trás. Nunca mais pretendo passar por aquela rua. Se, num descuido qualquer, mesmo contra minha vontade, acontecer de eu passar por ali - fecharei os olhos e imaginarei estar em qualquer outra parte do mundo. Não verei a casa novamente, não verei o que quer que tenham construído em seu lugar.
Tenho, hoje, plena convicção de que fui um menino que teve tudo e não teve nada. O que existe de bom em mim, agora como homem, se é que existe, eu mesmo criei, cultivei e desenvolvi apesar dos pesares, apesar da velha casa de Perdizes - onde tive poucos belos sonhos e muitos, muitos pesadelos.
Game over!
Abracadabra!
New game!
Qualquer novo jogo serve, desde que seja outro, desde que seja bem diferente daquele jogo que já perdi ou que se perdeu por si mesmo.

___

* (Fulana TEM um chic [chique], e não fulana É chic [chique])
(Não ando com paciência para revisões. Se acharem errros, passem por cima deles e sigam em frente, ok?)




São Paulo, Domingo, Fevereiro 15, 2004

(Conto ambientado no final do século XIX)

Insidiosa é toda loucura, porquanto cresce aos poucos, bem aos pouquinhos, como as primeiras hastes de um espinheiro negro que, na primavera, quando ainda se mostram verdes, flexíveis, misturam-se ladinamente à inocência de um canteiro de goivos. Assim podem receber as regas diárias do jardineiro desatento, e podem aprofundar raízes, e endurecer seus espinhos venenosos, sem pressa alguma, à sombra das flores e ao sopro dos perfumes do jardim, onde se permitem sonhar com a carne macia do dedo da menina, com a perfuração, com o grito, com o cheiro de sangue, com as três lágrimas que tombarão e depois desaparecerão entre os grãos da terra.
A loucura de Otto Mitterhoffer cresceu exatamente como um espinheiro entre goivos risonhos. Ao transparecer, já não havia esperança de cura ou controle. O homem de antes se fora para alhures; em seu lugar surgira o demente caçador de bundas.
Certa vez, a grande custo, Frau Sylvia Mitterhorffer conseguiu internar o irmão no Sanatório Odette de Crécy, localizado nas cercanias de Paris. Lá, um tal Dr. Schmols, diretor geral substituto (criatura repleta de bonomia), interessou-se pelo caso de Otto e, habilidoso como era, conquistou-lhe a confiança. Uma confiança relativa, a bem verdade, mas que acabou por trazer algumas luzes ao caso.
Quando Otto completou o trigésimo dia de internação, deu-se a conversa, no banco mais procurado dos jardins do sanatório, junto à pequena estátua de Psiquê derramando azeite quente no ombro de Eros.
- Diga-me, Herr Mitterhorffer, ainda se sente compelido a perseguir pessoas e dar-lhes tiros nos fundilhos? Ainda se sente um caçador de bundas?
- Caçador de bundas? Então é assim que me chamam os ímpios? Não caço qualquer bunda - esclareceu o paciente, um tanto surpreso com a ousadia do médico - , caço apenas as bundas perversas, as luciferinas, aquelas que têm o dom das más palavras. Faço-as calar com um único tiro de sal bento, bem certeiro, ali no ponto exato onde devia existir tão somente o olho cego, mas existe a boca maldita, a boca desdentada a serviço de Satanás. Posso consumir até nove semanas inteiras no encalço de uma dessas bundas perversas, herr doctor, mas Deus sabe que sempre alcanço a vitória, sempre as deixo definitivamente emudecidas. É maravilhoso saber que não mais dirão os horrores que propalavam aos quatro ventos, não mais darão voz às palavras chulas do Cão, palavras que viram a cabeça das pessoas!
- Então as bundas perversas falam, Herr Mitterhorffer? Falam como se tivessem boca, língua e cordas vocais?
- Sim, é o que fazem. Falam barbaridades. Não poderia o senhor imaginar os absurdos que dizem, assim despudoradamente, entre aquelas bochechas pálidas. E o hálito? O hálito fétido que lhes acompanha as palavras vem diretamente das furnas dos Infernos. É terrível, doutor. O que dizem é terrível!
- Herr Mitterhorffer, não quero parecer desrespeitoso, atrevido, mas tenho um interesse científico e até mesmo teológico, digamos assim, em conhecer esses horrores ditos pelas bundas diabólicas. O que dizem elas? Devem ser coisas estarrecedoras, é fato, ou o senhor não se teria transformado nesse caçador tão obstinado. O que dizem as bundas perversas, afinal?
- Peça-me qualquer outra coisa, menos que eu repita aquelas palavras, herr doctor. Nem queira atrair tamanha maldição para a sua vida. Se não as escuta, quis o Criador poupá-lo desse flagelo. Dê-se por satisfeito! Eu, pobre desgraçado que sou, escuto tudo o que elas dizem, quando se vão pelos caminhos, pelas ruas, remexendo as faces gordas, balançando-se, soprando murmúrios indecentes, fazendo convites, chamando-me para a trilha da perdição da alma.
- Que vida de sofrimentos, Herr Mitterhorffer! Nenhum outro caçador padece de tais torturas mentais, tendo em vista que as caças, de modo geral, não emitem sons inteligíveis. Caçar bundas deve ser um martírio!
- Minha vida é um martírio sem fim, herr doctor. Principalmente agora que já começo a escutar outras partes falantes, outras partes do corpo humano, as quais também se comprazem em dar voz aos discursos de Satanás. Só pode ser o Final dos Tempos, herr doctor! Não bastasse o imenso trabalho de caçar bundas perversas, agora me caberá a missão de silenciar aquelas outras boquinhas desdentadas. Aquelas bem pequeninas, compreendeu? - e Otto Mitterhorffer piscou o olho para o médico.
- Boquinhas, Herr Mitterhorffer? Poderia ser um pouco mais claro? - mas, antes mesmo de ouvir a resposta do caçador, num gesto inconsciente, de natureza defensiva, o Dr Schmols cruzou as pernas. Cruzou as pernas e retesou as coxas.

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Todos os Direitos relativos a este conto pertencem ao autor, conforme a Lei D. A. e registro na Biblioteca Nacional



São Paulo, Quarta-feira, Fevereiro 11, 2004

Morte e Vida Celestina, o novo romance de Alexandre Soares Silva, já pode ser comprado antes mesmo do lançamento oficial, que acontecerá no dia 04 de março, aqui em São Paulo.
Clique na imagem ao lado e faça o seu pedido agora. Por que esperar até março, meu Deus?
Parabéns ao sempre talentoso Alexandre e também aos editores da Candide!








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São Paulo, Sexta-feira, Janeiro 30, 2004

(Ambientado em 1914)

Tio Dorian, que na verdade tinha outro nome, adorava fazer rir a Mandarina, criada caduca de minha bisavó, e, para tanto, sempre lhe dizia as mesmas quadrinhas que se iam a alta voz, declamadas em tom de malícia: "A rosa quer-se apanhada / antes de sair o sol, / o cravo ao meio-dia, / pra o seu cheiro ser melhor. / As senhoras da cidade / têm grande opinião; / não sabem como hão de andar, / nem poisar os pés no chão."
"Pára! Pára!" - suplicava a velha desdentada, no entrecorte das gargalhadas, e referia-se a si mesma como um ente em separado, uma terceira pessoa por quem tivesse especial carinho - "A Mandarina num güenta ! Cuida dela! Cuida dela! Pára! Pára, por amor a Nossa Senhora!"
Tio Dorian não parava. E mais quadrinhas lá se iam pelo quarto, as mesma que a velha já ouvira outras centenas de vezes: "Chovam raios de toucinho, / centelhas de queijo mole, / venham quartilhos de vinho, / que este maltês tudo engole."
"Pára, malvadinho! Ai, ai, que me falta o ar! Ai, que eu me 'insufoco'!"- berrava a Mandarina, caindo sentada na cama e logo tombando para trás, vestido branco enfunado a revelar dois saiotes-de-baixo feitos de panos mais grosseiros, com barras desfiadinhas.
Tio Dorian, mãos na cintura, inclinava o torso para frente. Berrava a última quadra: "Boa herva é o poejo, / que se deita na açorda; / racha-me a cara com beijos, / tem cautela, não me mordas."
Com uma seqüência de gritos agudos, a Mandariana punha-se de pé, depois saía a correr, agarrada ao avental, cambaleando as pernas fininhas, duas ou três mechas de cabelos brancos voejantes escapadas do amarrilho da touca ainda mais branca. Já bem ao longe, ouvia-se a velha Mandarina pedir socorro à cozinheira: Luzia! Acuda, Luzia, que estou me "insufocando!"
Tio Dorian aprumava-se diante do espelho, puxava para baixo as pontas do colete, descia as escadas correndo e saía de casa ao encontro de suas putas.
Mandarina, afogueada, abanava-se e murmurava quase em êxtase: "Ai, se eu já não estivesse noiva, juro que fugia com aquele malvadinho!
Nesse momento, geralmente, Tio Dorian virava a esquina. Só no prenúncio do canto do galo é que retornaria a casa. Mandarina, então, já estaria acordada, para lhe abrir a porta. Ninguém mais perceberia a chegada do farrista.
...
A rosa quer-se apanhada / antes de sair o sol, / o cravo ao meio-dia, / pra o seu cheiro ser melhor.

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Todos os Direitos relativos a este texto pertencem ao autor, conforme a Lei D. A. e registro na Biblioteca Nacional



São Paulo, Terça-feira, Janeiro 27, 2004

(Cena de um sonho / madrugada de 25/01/2004)

"Sabei, sabei que o papa morreu! Morreu, mas não entrou no Paraíso! Não entrou, nem entrará, trá-lá-lá e trá-lá-lá!" - anunciou o anjo gay, figura das mais imponentes, par de asas bois de rose, minissaiote de centurião romano, corpo atlético besuntado com óleos de sândalo e jasmim. O anjo, aliás, tinha a cara do talentoso amigo Noriega (NORIEGA)
Feito o anúncio, ele continuou ali, pairado dois metros acima da torre sineira da capela puquiana.
Uma mulherzinha à-toa, que trazia debaixo do sovaco a seborréica biografia de Pagú, ergueu o queixo e replicou: "Isso é o que diz vosmecê, sujeito flamingóide! Nenhum outro papa peregrinou tanto, nenhum outro levou a mensagem da Igreja a tantos povos diferentes. Aposto que vosmecê nem é anjo católico. Mostre a carteirinha, mostre algum documento, blá, blá, blá, blá, blá!"
O anjo gay treplicou: "Digo porque sei, asneirenta semióloga! Vosmecê acha então que Deus se impressiona com turnês ou com mass media? Para Deus, ignorantona, um papa vale tanto quanto aquele pipoqueiro lá na esquina da Rua Bartira, o Ivanildo. Qual! O negócio todo é simples: não entra no Paraíso quem semeia intolerâncias e ainda, por conveniência e hipocrisia, esconde crimes terríveis debaixo do tapete. Não entra e pronto, entendeu? Discriminou, fica fora do Céu! Sinto muito, mas as coisas são assim, ó rapariga da foice enferrujada. Quer ver minha carteirinha? Ora, vá fazer sua terapia reichiana e não se intrometa em assuntos teológicos."
O anjo gay subiu mais dois metros e retomou a anunciação: "Sabei, sabei que o papa morreu! Morreu, mas não entrou no Paraíso! Não entrou, nem entrará, trá-lá-lá e trá-lá-lá!"




São Paulo, Segunda-feira, Janeiro 19, 2004

(conto ambientado em 1919)

Os olhos inferiores eram cinzentos e míopes. Eram banais, sincronizados, quase chorosos. Percebiam as cenas da vida e lançavam olhares através de lentes corretivas fabricadas em Genebra. O olho superior, que há oito meses desabrochara no meio da testa de Alice, era azul, perfeito, inquieto e com vida independente.
Enquanto dormiam os olhos cinzentos de Alice, sob as pálpebras franjadas de cílios fulvos, o olho azul continuava alerta, a mover-se na escuridão do quarto, capturando visões que eram e não eram deste mundo. O olho azul não tinha pálpebra que o cobrisse, por isso, de dez em dez minutos, vertia uma espécie de lágrima turva. Esse líquido, que uma vez Alice, apenas por curiosidade, levara até a língua, tinha um sabor repulsivo. Seria um gosto de sangue ou de uvas estragadas? Ela não quis tornar a provar daquela lágrima, nem que fosse só para tirar a dúvida.
Teodoro, o marido, recolhia-se ao leito depois da meia-noite. O olho azul acompanhava todos os seus movimentos; quando descalçava as botinas, ao despir o terno, ao meter-se nos pijamas de algodão. E não via apenas o homem, mas via o seu esqueleto feito de ossos que emitiam uma luz suave, ora verde esmeralda, ora de um amarelo fosco, sem graça; via também a cobra que morava dentro dos seus intestinos, a cobra de duas cabeças, ali adormecida desde outubro, mas que um dia qualquer haveria de acordar. Que horror, quando acordasse!
Alice já não saberia viver sem as visões que lhe oferecia o olho azul, fossem elas sublimes ou terríveis.
Focalizando a porta do salão de jantar, o olho superior enxergava o futuro. No futuro, existiriam coisas inimagináveis: livros redondos, como pequenas jóias de ouro e de prata; caixas teatrais dinâmicas; novos insetos e animais mamíferos recriados pela ciência da combinação improvável; relógios sonoros, sem ponteiros ou números; espíritos rastejantes, cuja única função seria a de limpar a sujeira e a podridão invisíveis, os dejetos de sentimentos e de pensamentos humanos; anjos dormindo de cabeça para baixo, em varais quilométricos, ao longo dos caminhos; cemitérios e mais cemitérios de ilusões, onde qualquer um, rico ou pobre, poderia sepultar decentemente os seus sonhos mais caros, os sonhos mortos, as decepções e suas memórias em cinzas.
O olho azul podia ver sete mundos dentro da Terra e sete mundos além da Terra. No miolo de uma rosa, por exemplo, podia enxergar Ariel, Caliban e Próspero. Nos degraus de uma velha escada, eram-lhe perfeitamente visíveis todas as marcas deixadas pelos passos dos muitos que a galgaram e que por ela desceram. O olho azul de Alice via tudo, o possível e o impossível.
...
- Como vai a nossa querida Alice May, Teodoro? Há tempos que não a vejo.
- Muito bem, mamãe. Apenas um pouco mais calada. Alice é dada a essas fases que vêm e vão.
- Ela perdeu aquela irritante mania de ficar com o dedo na testa a desenhar círculos imaginários? Aquilo mexia com meus nervos, Teodoro.
- Não, mamãe, ela continua fazendo aquilo, mas é uma mania como outra qualquer. Assim como apareceu, há de sumir.
- E a sua prisão de ventre, meu filho? Já consultou o Dr. Heleno? Tentou as tais pílulas cor-de-rosa?

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Todos os Direitos relativos a este texto pertencem ao autor, conforme a Lei D. A. e registro na Biblioteca Nacional



São Paulo, Segunda-feira, Janeiro 12, 2004

Começarei olhando para a parede que existe, onde a janela que não existe revela os primeiros quilômetros do meu caminho de Méséglise.
Poucas pessoas conseguem localizar essas janelas inexistentes, que, a despeito de não se revelarem com facilidade, ali estão, geralmente nas paredes internas da casa, em lugares os quais uma pessoa sensata juraria ser impossível haver qualquer abertura que desse para o espaço exterior.
Assim se apresenta o enigma: as janelas inexistem, é fato, mas podem ser vistas e atravessadas, desde que nos dediquemos a desenvolver determinadas habilidades do espírito. Uma das chaves do enigma, já adianto aqui, depende da correta utilização dos livros.
Coloco a cabeça para fora da janela inexistente, a fim de aspirar os perfumes que me chegam lá dos jardins de Charles Swann.
Apertando um pouco os olhos, consigo enxergar, ainda mais ao longe, o menino que brinca entre as flores dos pilriteiros.
Ele salta, gira, agacha-se e levanta-se, indiferente às redes de espinhos escuros que se ocultam por detrás das inflorescências - os mesmos espinhos escuros e duros dos pilriteiros de Jerusalém, aqueles que, em ramos trançados, um dia serviram à dolorosa coroação do Cristo. Espinhos escuros e duros à sombra dos cachos de flores brancas, de pétalas arredondas, e de cujo centro emergem os estames encimados por almofadinhas de pólen.
Se o menino me pudesse ouvir, eu gritaria daqui desta janela: "Fica aí onde estás! Aproveita mais um pouco desse teu tempo que se há de perder muito depressa!
Tolice! A existência desse menino a brincar entre os pilriteiros é perpétua. Ah! como é importante ele estar ali.
Ao tempo em que envelhecemos - nós, os homens - e partimos todos a buscar os pedacinhos da nossa própria alma no regresso às memórias da infância e da mocidade, tudo o que nos importa, tudo o que nos consola, creiam-me, são alguns poucos cheiros, uma pedra, uma flor, um retalho de céu, uma velha estampa de cortina, coisas que se parecem com outras tantas que ficaram para trás - coisas que nos dão a ilusão de um sentido para cada adeus, talvez a ilusão de que ainda é possível abrir uma porta, uma janela, um buraco na parede e reencontrar, atravessando essa passagem, o melhor do que fomos, ou o melhor do que poderíamos ter sido.
A luz do meu caminho de Méséglise já se apaga um pouco mais. Sempre anoitece quando menos se espera. Um descuido e o presente já é passado.
Eu entro e saio há tantos anos das páginas deste livro de Swann, que até posso ouvir o tec tec do facão de Françoise, na cozinha, aparando as pontas dos aspargos; escuto os suspiros de tia Léonie, decepcionada com o atraso de Eulalie, a novidadeira; acompanho os passos do menino que, enfim, já volta para casa, trazendo alguns rabiscos de pólen nos cabelos negros.
Seis da tarde, em São Paulo. Em Combray, neste exato momento, todos os relógios pararam de funcionar, simplesmente porque eu fechei o livro de Swann - e assim a janela inexistente também desapareceu da parede que existe, mas não desapareceu para sempre, senão eu nem saberia como viver.


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